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Educação e Governo Aberto

Entrevista

Entrevista com Priscila Gonsales, Diretora Executiva do Instituto Educadigital
publicado: 24/02/2017 12h08 última modificação: 24/02/2017 14h01

Qual é a relação entre Governo Aberto e Educação? Como Governo Aberto pode contribuir para uma política eficaz de Recursos Educacionais Digitais? Essas foram as perguntas que orientaram a entrevista realizada pela Equipe OGP Brasil com Priscila Gonsales, Diretora Executiva do Instituto Educadigital. Acompanhe a íntegra da entrevista e tire suas dúvidas sobre a relação entre Governo Aberto e Educação.

 

Congresso REA da Unesco em Paris.jpg


O Instituto Educadigital (IED) é uma organização sem fins lucrativos e atualmente é referência mundial em projetos inovadores de uso pedagógico de tecnologias digitais, dentro e fora das escolas. Em linhas gerais, fale um pouco mais sobre a história do IED e de seus objetivos.

O IED foi fundado no fim de 2010, por mim e outras duas profissionais da área de educação e cultura digital. Havíamos acabado de sair do CENPEC (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), depois de 10 anos de experiência como pesquisadoras e coordenadoras de projetos na área. Grande parte do que hoje ouvimos falar sobre inovação em educação digital nós já tínhamos tido a oportunidade de por em prática, como por exemplo, em 2004, lançamos uma comunidade virtual de aprendizagem entre escolas de todo o Brasil, incentivando a autoria de alunos e professores e o trabalho colaborativo em rede. Uma época em que ainda não existia o Facebook e tantas outras mídias sociais.

Quando sentimos que nossa missão precisava expandir, com mais autonomia e com uma causa bastante definida que pudesse valorizar o potencial de pesquisa, comunicação e autoria do mundo digital, decidimos empreender o IED. No mesmo período, recebi um convite muito especial da advogada brasileira Carolina Rossini. Residente nos EUA, ela foi pioneira em trazer para o Brasil em 2008 o debate sobre os REA (recursos educacionais abertos) que estava despontando no mundo todo.

 Desde aquele momento, nossas ações, projetos e estratégias de atuação ganharam ainda mais sentido. O conceito de “open” (aberto) e não apenas “gratuito” passou a integrar tudo o que a gente fazia e produzia. Passamos a atuar com advocacy para política pública no âmbito legislativo e também com formação de educadores e gestores do executivo.

 Em 2013, recebi o convite para integrar a rede de empreendedores sociais mundiais da Ashoka, organização global que identifica e oferece apoio financeiro a pessoas que desenvolvem um trabalho único e de reconhecida repercussão em sua região de atuação.

 Gosto sempre de enfatizar que o IED hoje é resultado de uma construção coletiva de todos que fazem ou já fizeram parte dele. Buscamos implementar um modelo de organização disruptivo em relação ao modelo padrão de uma organização do 3o Setor. Não temos uma equipe fixa trabalhando junta todos os dias. Em vez disso, preferimos fomentar uma rede de colaboradores de diversos locais do país e também do mundo e com distintos perfis, os quais podemos acionar conforme os projetos que surgirem. Também decidimos não investir em uma sede física, podemos trabalhar em diversos lugares: coworkings, bibliotecas, cafés e em nossas próprias casas. Tudo isso é uma escolha. E, claro, isso só é possível com a internet que temos hoje, favorecendo as conexões e encurtando as distâncias.

 Nossa especialidade é a concepção e o planejamento de projetos na cultura digital a partir de cinco áreas estratégicas que se inter-relacionam entre si, de acordo com o foco do projeto e/ou a iniciativa a ser desenvolvida:

  •  Educação Aberta – essa é a nossa causa, acreditamos na partilha de boas ideias, conteúdos e informações que a cultura da internet traz, marcada pela colaboração e a interatividade;
  • Design Thinking para Educadores – fomos pioneiros em trazer para a educação brasileira a abordagem centrada nas pessoas e baseada na empatia, colaboração e experimentação;
  • Formação e Facilitação Pedagógica – formar educadores significa estimular a autonomia, a reflexão e a troca de experiências sobre a prática docente;
  • Gestão e Curadoria – planejamento e execução de projetos e eventos educacionais coerentes com nosso propósito de atuação;
  • Programa de Mentoria – desenvolvemos de maneira individual e coletiva atividades que auxiliam e orientam educadores por meio do compartilhamento de conhecimentos e experiências acumulados;
  • Comunicação em Rede e Narrativas Digitais – elaboramos e apoiamos a construção de materiais e publicações na área de educação em formato multimídia e linguagens contemporâneas.

 

O IED, com a missão de contribuir para a criação e o desenvolvimento de novas oportunidades de aprendizagem, instiga o compartilhamento de conhecimento envolvendo educação e tecnologia. De forma geral, quais são, atualmente, os grandes avanços e desafios identificados em relação à participação social, transparência e acesso à informação na educação?

Com todos os problemas que a educação enfrenta, temos muitos avanços nesses itens. Essencialmente, porque temos hoje uma internet livre e democrática, que permite que qualquer pessoa se manifeste, independentemente da linha ideológica ou posição política. Cada vez mais, as redes sociais escancaram as belezas e patologias de nossa sociedade, o que em tese é bem importante e faz parte da convivência humana lidar com conflitos de opinião e diversidade de posição.

Veja que conseguimos cocriar um Marco Civil da Internet no Brasil, algo que seria impensável sem a tecnologia digital. Não só a composição do texto pode ser feita de maneira aberta, mas também o ativismo pela causa foi favorecido e potencializado pelo uso das redes sociais digitais até que o projeto de lei fosse aprovado em 2014. Mas a batalha não está totalmente vencida, pois existem mais de 25 projetos de lei tramitando no Congresso que podem ameaçar essa conquista. Poucas pessoas, no entanto, compreendem como a manutenção do Marco Civil é fundamental para a educação com equidade que tanto queremos.

Foram bem poucos os educadores que de fato se envolveram nessa luta. Se educação hoje vem se tornando uma “causa” de tantas pessoas, de tantas áreas do saber, como podemos engajar os próprios educadores a se envolverem em questões que aparentemente não têm uma relação tão direta com seu dia-a-dia mas que vão impactar imensamente em um futuro próximo?

Isso pra mim é o grande desafio de quem atua com educação e participação social na educação. Como construir de fato uma participação significativa?

Acompanhamos também, pela primeira vez, o Ministério da Educação criar um ambiente colaborativo para discussão da Base Curricular Nacional, prevista no Plano Nacional de Educação. E isso é um grande avanço. Permitir a abertura do processo de criação em vez de continuar no modelo fechado apenas com especialistas e acadêmicos.

Transparência de dados é outro ponto bastante desafiante para os órgãos de educação. Como disponibilizar, de que forma disponibilizar. Mesmo com a Lei de Acesso à Informação, eu mesma já obtive como resposta a inexistência dos dados que eu estava buscando. Não há uma prática cultural de registro, sistematização e compartilhamento nos setores públicos de educação.

Puxando para a nossa causa da educação aberta, existe ainda muito desconhecimento em relação à diferença do que é aberto e do que é gratuito. Do que é público e do que é bem comum. Secretarias de educação e o próprio Ministério ainda não sabe identificar, analisar prós e contras e selecionar o que comprar ou produzir de terceiros. Trata-se de uma mudança cultural de processo, de modelo mental, de enfatizar o público para o público e isso envolve desde materiais didáticos, política institucional de formação docente até dados oficiais que são disponibilizados.  

Foi pensando nisso que decidimos criar um Guia Educação Aberta para Gestores Públicos e acabamos de conseguir um financiamento do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil) para poder viabilizar. Em breve teremos esse material a disposição.


Nos últimos anos, o IED desenvolveu projetos importantíssimos como o “Educar na Cultura Digital”, a “Escola Digital” e o “Design Thinking para Educadores”. Qual foi a metodologia aplicada nessas pesquisas e quais seus impactos imediatos para a sociedade?

O Educar na Cultura Digital foi nosso primeiro projeto focado na formação de uma rede entre os educadores. Criamos um grupo de estudos no Moodle (software livre utilizado em cursos) sobre como utilizar as tecnologias digitais para além dos dispositivos novos que estavam sendo lançados. Por meio de conversas aprofundadas, o foco era estimular a reflexão sobre valores, habilidades socioemocionais e uso responsável da internet. Todos podiam falar com todos, não havia um “instrutor” que dava a palavra final, mas sim todos se comunicando entre todos e moderadores que éramos nós e os que convidávamos entre os participantes. A Débora Sebriam, por exemplo, minha parceira há 6 anos nas ações em prol da educação aberta, foi um “achado” entre os participantes mais atuantes do ECD. Posso dizer que boa parte da rede que temos hoje no IED foi estruturada com esse projeto, mesmo depois de ser finalizado.

Já o Escola Digital foi um projeto que participamos da concepção inicial e das primeiras pesquisas de objetos disponíveis online. Fizemos a facilitação de um encontro com educadores e empreendedores de edtech para estruturar a categorização dos materiais que seriam referenciados. Pela primeira vez, conseguimos colocar um campo de busca por licenças abertas e utilizamos o Wordpress como base da plataforma. Como só participamos dessa primeira fase e pelo que observo, o ED não tem foco em REA nem utiliza mais software livre, mas possibilita que as secretarias de educação customizem suas respectivas páginas iniciais. Porém, a questão aqui é saber se os governos estão se preocupando com a sustentabilidade do projeto ou apenas se beneficiam do investimento social privado sem nenhum custo. Mas, e se de repente as fundações deixarem de investir?

O Design Thinking para Educadores é uma iniciativa autoral do IED. Em 2014 fizemos a versão em Português do material criado pela consultoria IDEO, do Vale do Silício(EUA) e já inserimos exemplos de projetos com os quais havíamos trabalhado, utilizando o DT. Ao ser lançado como material aberto e disponível para download no site, foram surgindo demandas de formação e orientação sobre como utilizar a abordagem, seja em sala de aula, seja entre as equipes da gestão escolar — na Educação Básica e Superior. E isso vem trazendo sustentabilidade ao IED. Prestamos serviços, não apenas executamos projetos de outras empresas/fundações. Além disso, a iniciativa do DT é sempre usada como “case” quando queremos dialogar com edtechs e editoras sobre novos modelos de negócio na cultura digital, sobre como é sim possível atuar em educação aberta, produzir REA e ter uma remuneração.

 

Em meados de 2016, o IED participou ativamente da construção do 3º Plano de Ação do Brasil, especificamente na oficina de Recursos Educacionais Digitais. Qual é a avaliação que o IED faz do 3º Plano de Ação do Brasil? Qual foi a contribuição e o impacto dos outros planos de ação para avanços em transparência, accountability e participação social?

Posso dizer sem hesitar que esse compromisso no 3o Plano de Ação do OGP é a principal conquista de todo o nosso trabalho com a causa da educação aberta nos últimos anos.

Já havíamos conseguido alguns bons resultados em política pública como:

  • PL Federal REA 1513/2011
  • Decreto municipal da cidade de São Paulo 52681/2011
  • PL Estadual SP 989/2011 (aprovado em Assembleia, mas vetado pelo governador)
  • Lei no DF 1832/2014
  • PL Estadual PR 185/2014
  • Plano Nacional de Educação – metas 5 e 7

Mas, como sempre enfatizamos, o fato de haver leis não garante a mudança das práticas. Muito mais importante são as ações e políticas efetivas que possam ser implementadas. Nesse sentido, os órgãos executivos são os que deveriam buscar implementar uma política de educação aberta em benefício do bem comum. E o OGP impulsiona isso, pois engloba diversos outros compromissos relacionados à transparência e abertura.

No mais, destaco ainda o processo metodológico de construção do compromisso: a cocriação, essencialmente, assim como a participação de atores diversos no grupo. ONGs, governo, fundações e empresas puderam trocar e colaborar para criar de maneira pioneira um compromisso que garanta os princípios de uso, reuso, adaptação e também fomente a curadoria compartilhada e colaborativa, evitando que se diga equivocadamente que “REA não tem qualidade”.


Em linhas gerais, como o IED pode continuar contribuindo para o fomento de governo aberto no Brasil? Quais são os grandes avanços e desafios do país?

Puxa, são muitos os desafios ainda. Comentei na questão 2 sobre os avanços que mais venho acompanhando, mas certamente existem vários outros. Precisamos continuar lutando pela democracia e seu amplo significado, pois mesmo com seus defeitos, é ainda a única garantia de que os direitos da população devem estar em primeiro plano e que a corrupção deve ser punida. Em relação ao nosso compromisso no OGP-Brasil, pretendemos atuar em parceria com o órgão executor, o MEC, e os demais participantes do grupo de cocriação a implementar uma política eficaz de recursos digitais em benefício do público. Com esse compromisso, o OGP-Brasil passa também a ter mais relevância internacional, dentro do grupo OGP-Global em que REA é um assunto primordial nos diversos países.

Começamos a apoiar fortemente a CAPES desde 2015, quando fizemos formação de gestores técnicos e, a partir do segundo semestre de 2016, em parceria com a Cátedra de Educação Aberta da Unesco, estamos elaborando um curso online para as mais de 120 universidades federais do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB). Em breve, a UAB vai ser de fato aberta, as universidades poderão escolher licenças abertas, vão aprender a colaborar mais entre si e a disponibilizar os saberes da universidade pública para toda a sociedade.

Queremos levar essa concepção para o MEC também. A boa notícia é que não estamos mais falando de sonho ou utopia. É uma realidade crescente. Um processo.


Em uma parceria da Open Knowledge Brasil (OKBr), o Instituto Educadigital (IED), o Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED) e a Escuela Superior Politécnica del Litoral (ESPOL) foi divulgado no You Tube primeira vídeo-animação brasileira sobre Recursos Educacionais Abertos. A iniciativa é um dos resultados do projeto MIRA – Mapa Interativo de Recursos Abertos. Para assistir ao vídeo, clique aqui.

Para conhecer mais dos trabalhos desenvolvidos pelo IED, clique aqui.